domingo, 13 de abril de 2014

Homilia do Papa na Missa de Ramos

Homilia do Papa na Missa de Ramos - 13/04/14
HOMILIA

Celebração do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor
Praça São Pedro – Vaticano
Domingo, 13 de abril de 2014
Boletim da Santa Sé
Tradução: Jéssica Marçal
Esta semana começa com a procissão festiva com os ramos de oliveira: todo o povo acolhe Jesus. As crianças, os jovens cantam, louvam Jesus.
Mas esta semana segue adiante no mistério da morte de Jesus e da sua ressurreição. Ouvimos a Paixão do Senhor. Fará bem a nós nos fazermos somente uma pergunta: quem sou eu? Quem sou eu diante do meu Senhor? Quem sou eu diante de Jesus que entra em festa em Jerusalém? Sou capaz de exprimir a minha alegria, de louvá-Lo? Ou tomo distância? Quem sou eu, diante de Jesus que sofre?
Escutamos tantos nomes, tantos nomes. O grupo de líderes, alguns sacerdotes, alguns fariseus, alguns mestres da lei, que tinham decidido matá-Lo. Esperavam a oportunidade para prendê-Lo. Eu sou como um deles?
Escutamos também um outro nome: Judas. 30 moedas. Sou como Judas? Ouvimos também outros nomes: os discípulos que não entendiam nada, que adormeciam enquanto o Senhor sofria. A minha vida está adormecida? Ou sou como os discípulos, que não entendiam o que era trair Jesus? Como aquele outro discípulo que queria resolver tudo com a espada: sou como eles? Sou como Judas, que finge amar e beija o Mestre para entregá-Lo, pra traí-lo? Eu sou traidor? Sou como aqueles líderes que com pressa fazem o tribunal e procuram falsas testemunhas: sou como eles? E quando faço estas coisas, se as faço, acredito que com isto salvo o povo?
Eu sou como Pilatos? Quando vejo que a situação está difícil, lavo as minhas mãos e não sei assumir a minha responsabilidade e deixo condenar – ou condeno eu – as pessoas?
Sou como aquela multidão que não sabia bem se estava em uma reunião religiosa, em um julgamento ou em um circo, e escolhe Barrabás? Para eles é o mesmo: era mais divertido, para humilhar Jesus.
Sou como os soldados que atingem o Senhor, cospem Nele, insultam-No, se divertem com a humilhação do Senhor?
Eu sou como o Cirineu, que voltava do trabalho, cansado, mas teve a boa vontade de ajudar o Senhor a carregar a cruz ?
Eu sou como aqueles que passavam diante da Cruz e zombavam de Jesus: “Era tão corajoso! Desça da cruz, e nós vamos acreditar Nele”. Zomba-se de Jesus…
Sou como aquelas mulheres corajosas, e como a Mãe de Jesus, que estavam ali, sofrendo em silêncio?
Sou como José, o discípulo escondido, que leva o corpo de Jesus com amor, para levá-lo à sepultura?
Sou como as duas Marias, que permanecem diante do Sepulcro chorando, rezando?
Eu sou como aqueles líderes que no dia seguinte foram a Pilatos para dizer: “Olha, ele dizia que iria ressuscitar. Que não seja mais um engano!”, e bloqueiam a vida, bloqueando o sepulcro para defender a doutrina, para que a vida não venha para fora?
Onde está o meu coração? Com qual destas pessoas eu me pareço? Que esta pergunta nos acompanhe durante toda a semana.
Papa Francisco
fonte: papa.cancaonova.com

quarta-feira, 5 de março de 2014

Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma 2014

Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma 2014
MENSAGEM
Mensagem do Papa Francisco para a Quaresma 2014
Terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Boletim da Santa Sé
Fez-Se pobre, para nos enriquecer com a sua pobreza (cf. 2 Cor 8,9)
Queridos irmãos e irmãs!
Por ocasião da Quaresma, ofereço-vos algumas reflexões com a esperança de que possam servir para o caminho pessoal e comunitário de conversão. Como motivo inspirador tomei a seguinte frase de São Paulo: « Conheceis bem a bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, Se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza » (2 Cor 8,9). O Apóstolo escreve aos cristãos de Corinto encorajando-os a serem generosos na ajuda aos fiéis de Jerusalém que passam necessidade. A nós, cristãos de hoje, que nos dizem estas palavras de São Paulo? Que nos diz, hoje, a nós, o convite à pobreza, a uma vida pobre em sentido evangélico?
1. A graça de Cristo
Tais palavras dizem-nos, antes de mais nada, qual é o estilo de Deus. Deus não Se revela através dos meios do poder e da riqueza do mundo, mas com os da fragilidade e da pobreza: « sendo rico, Se fez pobre por vós ». Cristo, o Filho eterno de Deus, igual ao Pai em poder e glória, fez-Se pobre; desceu ao nosso meio, aproximou-Se de cada um de nós; despojou-Se, « esvaziou-Se », para Se tornar em tudo semelhante a nós (cf. Fil 2,7; Heb 4,15). A encarnação de Deus é um grande mistério. Mas, a razão de tudo isso é o amor divino: um amor que é graça, generosidade, desejo de proximidade, não hesitando em doar-Se e sacrificar-Se pelas suas amadas criaturas. A caridade, o amor é partilhar, em tudo, a sorte do amado. O amor torna semelhante, cria igualdade, abate os muros e as distâncias. Foi o que Deus fez connosco. Na realidade, Jesus « trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-Se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, excepto no pecado » (ConC. ECum. Vat. II, Const. past. Gaudium et spes, 22).
A finalidade de Jesus Se fazer pobre não foi a pobreza em si mesma, mas – como diz São Paulo – « para vos enriquecer com a sua pobreza ». Não se trata dum jogo de palavras, duma frase sensacional. Pelo contrário, é uma síntese da lógica de Deus: a lógica do amor, a lógica da Encarnação e da Cruz. Deus não fez cair do alto a salvação sobre nós, como a esmola de quem dá parte do próprio supérfluo com piedade filantrópica. Não é assim o amor de Cristo! Quando Jesus desce às águas do Jordão e pede a João Baptista para O baptizar, não o faz porque tem necessidade de penitência, de conversão; mas fá-lo para se colocar no meio do povo necessitado de perdão, no meio de nós pecadores, e carregar sobre Si o peso dos nossos pecados. Este foi o caminho que Ele escolheu para nos consolar, salvar, libertar da nossa miséria. Faz impressão ouvir o Apóstolo dizer que fomos libertados, não por meio da riqueza de Cristo, mas por meio da sua pobreza. E todavia São Paulo conhece bem a « insondável riqueza de Cristo » (Ef 3,8), « herdeiro de todas as coisas » (Heb 1,2).
Em que consiste então esta pobreza com a qual Jesus nos liberta e torna ricos? É precisamente o seu modo de nos amar, o seu aproximar-Se de nós como fez o Bom Samaritano com o homem abandonado meio morto na berma da estrada (cf. Lc 10,25-37). Aquilo que nos dá verdadeira liberdade, verdadeira salvação e verdadeira felicidade é o seu amor de compaixão, de ternura e de partilha. A pobreza de Cristo, que nos enriquece, é Ele fazer-Se carne, tomar sobre Si as nossas fraquezas, os nossos pecados, comunicando-nos a misericórdia infinita de Deus. A pobreza de Cristo é a maior riqueza: Jesus é rico de confiança ilimitada em Deus Pai, confiando-Se a Ele em todo o momento, procurando sempre e apenas a sua vontade e a sua glória. É rico como o é uma criança que se sente amada e ama os seus pais, não duvidando um momento sequer do seu amor e da sua ternura. A riqueza de Jesus é Ele ser o Filho: a sua relação única com o Pai é a prerrogativa soberana deste Messias pobre. Quando Jesus nos convida a tomar sobre nós o seu « jugo suave » (cf. Mt 11,30), convida-nos a enriquecer-nos com esta sua « rica pobreza » e « pobre riqueza », a partilhar com Ele o seu Espírito filial e fraterno, a tornar-nos filhos no Filho, irmãos no Irmão Primogénito (cf. Rm 8,29).
Foi dito que a única verdadeira tristeza é não ser santos (Léon Bloy); poder-se-ia dizer também que só há uma verdadeira miséria: é não viver como filhos de Deus e irmãos de Cristo.
2. O nosso testemunho
Poderíamos pensar que este « caminho » da pobreza fora o de Jesus, mas não o nosso: nós, que viemos depois d’Ele, podemos salvar o mundo com meios humanos adequados. Isto não é verdade. Em cada época e lugar, Deus continua a salvar os homens e o mundo por meio da pobreza de Cristo, que Se faz pobre nos Sacramentos, na Palavra e na sua Igreja, que é um povo de pobres. A riqueza de Deus não pode passar através da nossa riqueza, mas sempre e apenas através da nossa pobreza, pessoal e comunitária, animada pelo Espírito de Cristo.
À imitação do nosso Mestre, nós, cristãos, somos chamados a ver as misérias dos irmãos, a tocá-las, a ocupar-nos delas e a trabalhar concretamente para as aliviar. A miséria não coincide com a pobreza; a miséria é a pobreza sem confiança, sem solidariedade, sem esperança. Podemos distinguir três tipos de miséria: a miséria material, a miséria moral e a miséria espiritual. A miséria material é a que habitualmente designamos por pobreza e atinge todos aqueles que vivem numa condição indigna da pessoa humana: privados dos direitos fundamentais e dos bens de primeira necessidade como o alimento, a água, as condições higiénicas, o trabalho, a possibilidade de progresso e de crescimento cultural. Perante esta miséria, a Igreja oferece o seu serviço, a sua diakonia, para ir ao encontro das necessidades e curar estas chagas que deturpam o rosto da humanidade. Nos pobres e nos últimos, vemos o rosto de Cristo; amando e ajudando os pobres, amamos e servimos Cristo. O nosso compromisso orienta-se também para fazer com que cessem no mundo as violações da dignidade humana, as discriminações e os abusos, que, em muitos casos, estão na origem da miséria. Quando o poder, o luxo e o dinheiro se tornam ídolos, acabam por se antepor à exigência duma distribuição equitativa das riquezas. Portanto, é necessário que as consciências se convertam à justiça, à igualdade, à sobriedade e à partilha.
Não menos preocupante é a miséria moral, que consiste em tornar-se escravo do vício e do pecado. Quantas famílias vivem na angústia, porque algum dos seus membros – frequentemente jovem – se deixou subjugar pelo álcool, pela droga, pelo jogo, pela pornografia! Quantas pessoas perderam o sentido da vida; sem perspectivas de futuro, perderam a esperança! E quantas pessoas se vêem constrangidas a tal miséria por condições sociais injustas, por falta de trabalho que as priva da dignidade de poderem trazer o pão para casa, por falta de igualdade nos direitos à educação e à saúde. Nestes casos, a miséria moral pode-se justamente chamar um suicídio incipiente. Esta forma de miséria, que é causa também de ruína económica, anda sempre associada com a miséria espiritual, que nos atinge quando nos afastamos de Deus e recusamos o seu amor. Se julgamos não ter necessidade de Deus, que em Cristo nos dá a mão, porque nos consideramos auto-suficientes, vamos a caminho da falência. O único que verdadeiramente salva e liberta é Deus.
O Evangelho é o verdadeiro antídoto contra a miséria espiritual: o cristão é chamado a levar a todo o ambiente o anúncio libertador de que existe o perdão do mal cometido, de que Deus é maior que o nosso pecado e nos ama gratuitamente e sempre, e de que estamos feitos para a comunhão e a vida eterna. O Senhor convida-nos a sermos jubilosos anunciadores desta mensagem de misericórdia e esperança. É bom experimentar a alegria de difundir esta boa nova, partilhar o tesouro que nos foi confiado para consolar os corações dilacerados e dar esperança a tantos irmãos e irmãs imersos na escuridão. Trata-se de seguir e imitar Jesus, que foi ao encontro dos pobres e dos pecadores como o pastor à procura da ovelha perdida, e fê-lo cheio de amor. Unidos a Ele, podemos corajosamente abrir novas vias de evangelização e promoção humana.
Queridos irmãos e irmãs, possa este tempo de Quaresma encontrar a Igreja inteira pronta e solícita para testemunhar, a quantos vivem na miséria material, moral e espiritual, a mensagem evangélica, que se resume no anúncio do amor do Pai misericordioso, pronto a abraçar em Cristo toda a pessoa. E poderemos fazê-lo na medida em que estivermos configurados com Cristo, que Se fez pobre e nos enriqueceu com a sua pobreza. A Quaresma é um tempo propício para o despojamento; e far-nos-á bem questionar-nos acerca do que nos podemos privar a fim de ajudar e enriquecer a outros com a nossa pobreza. Não esqueçamos que a verdadeira pobreza dói: não seria válido um despojamento sem esta dimensão penitencial. Desconfio da esmola que não custa nem dói.
Pedimos a graça do Espírito Santo que nos permita ser « tidos por pobres, nós que enriquecemos a muitos; por nada tendo e, no entanto, tudo possuindo » (2 Cor 6,10). Que Ele sustente estes nossos propósitos e reforce em nós a atenção e solicitude pela miséria humana, para nos tornarmos misericordiosos e agentes de misericórdia. Com estes votos, asseguro a minha oração para que cada crente e cada comunidade eclesial percorra frutuosamente o itinerário quaresmal, e peço-vos que rezeis por mim. Que o Senhor vos abençoe e Nossa Senhora vos guarde!

Vaticano, 26 de Dezembro de 2013
Festa de Santo Estêvão, diácono e protomártir
FRANCISCUS
fonte: papa.cancaonova.com

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Amar, unir, servir – Carta Pastoral do Cardeal Orani João Tempesta

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Aos irmãos e irmãs no Deus que a todos ama,
Aos sacerdotes, diáconos e consagrados,
Aos irmãos bispos auxiliares, 
que tanto auxiliam na minha missão na Arquidiocese do Rio de Janeiro
 
1. O amor de Deus é fonte de alegria, união e paz! O amor a Deus é fonte de serviço, reconciliação e fraternidade!
2. É com esta certeza que me dirijo a cada irmão e irmã cujas vidas, de algum modo, estão ligadas ao Rio de Janeiro, cidade que me adotou e cidade que eu acolhi como grande presente de Deus em minha vida. Não distingo ninguém. Dirijo-me aos que aqui residem, aos que passam por esta cidade buscando levar adiante a aventura da vida, aos que aqui se alegram e aos que, no chão desta cidade maravilhosa, deixam também um pouco de suas lágrimas. Somos todos irmãos.
3. Cheguei ao Rio de Janeiro em 2009. Ao chegar, manifestei o desejo de que os cariocas tomassem posse de mim e, nestes cinco anos, foi isso que a graça de Deus permitiu acontecer. Em visitas, encontros, celebrações e mesmo na rapidez de uma simples saudação, venho aprendendo a descobrir o mistério de Deus tão presente entre nós. Por isso, agradeço pela acolhida, a compreensão, o carinho, o sorriso, o suor enxugado, as portas sempre abertas e as orações. O que eu seria sem tudo isso?
4. Em cada gesto destes, vejo a presença de Deus. Sou um homem de Deus, sou um homem para Deus, sou um homem com Deus. Não sei viver diferente. Nunca soube! Rezo e peço suas orações para que incessantemente eu continue a amadurecer em mim esta certeza e, enquanto Deus assim quiser, possamos, nós todos, caminhar juntos, unidos, rumo Àquele que nos amou primeiro (1 Jo 4,19).
Um tempo de profundas transformações
5. Em nossos dias, tudo se transforma rapidamente. Sentimos na pele a velocidade que carimba tudo como ultrapassado. Por certo, o avanço tecnológico nos conduz à substituição de objetos por outros mais atualizados. Bendigo a Deus por estes avanços e pelos benefícios que eles trazem, especialmente na superação das mazelas humanas. Preocupo-me, no entanto, com a mentalidade de que também pessoas e convicções sejam levadas na mesma avalanche do descartável. Somos todos filhos e filhas do mesmo Pai, que a todos ama indistintamente, sem descartar quem quer que seja, em especial os mais fracos, os mais frágeis.
6. Reconhecer estas transformações e seus efeitos não é, como talvez alguém chegue a pensar, saudosismo, desejo de voltar a um tempo que já se foi. Ao contrário, precisamos assumir nosso tempo, com seus desafios, pois o nosso tempo é o tempo em que Deus nos colocou. O nosso tempo é, portanto, hoje! É no aqui e agora de nossas existências que somos chamados a discernir o que devemos fazer para que as descobertas das ciências e todos os demais avanços não conduzam à desumanização, ao enfraquecimento da fraternidade e da solidariedade e ao distanciamento da dor alheia. Precisamos envolver esta realidade tão desafiadora com o coração do Evangelho: o amor, a fraternidade, a solidariedade, a concórdia e a caridade.
7. Estas serão sempre as respostas cristãs em qualquer tempo e, consequentemente, também nossas respostas hoje. Diante da violência, corremos o risco de buscar soluções violentas. Diante do descartável, corremos o risco de considerar ultrapassados os compromissos definitivos, os valores que permanecem ou os sonhos duradouros. São tantas as transformações que sobre nós desaba o risco de já nem discernirmos com a necessária clareza entre o que realmente deve permanecer e o que pode ser deixado de lado.
8. A resposta é simples e nós a conhecemos: permanecem o amor a Deus e o amor ao próximo. Qualquer outra resposta que se feche a isso não pode ser aceita por ferir a dimensão mais profunda de todo ser humano, de cada ser humano. Este é o critério de discernimento para todos os cristãos. É igualmente o que os cristãos oferecem a este tempo que já não se sente confortável diante de critérios às vezes seculares, mas que ainda não sabe exatamente por quais caminhos seguir. O mundo de hoje é profundamente plural. Nem por isso, os cristãos deixarão de ser cristãos, relativizando os valores evangélicos. Ao contrário,os cristãos haverão de se empenhar para que, através do testemunho e do diálogo, manifestem a grandeza do amor a Deus e ao próximo como condições de paz e felicidade.
O amor a Deus
9. O amor a Deus – não me cansarei de repetir – é condição de paz e felicidade. A ele todos são convidados. Quem já o descobriu e acolheu é chamado a transmiti-lo por gestos e palavras. Não se trata, bem sabemos, de imposição, pois não se responde ao amor a não ser pelo livre acolhimento, um acolhimento que, por sua vez, só tem efetivo valor quando se deixa transformar e, na conversão, transborda para os demais, exalando o suave perfume de Deus agindo nos corações (cf. Os 14.6, Ef 5,2).
10. Deus não é o Deus do medo, da guerra, da violência, da vingança nem da ganância. Quem contempla Jesus Cristo só descobre em seus atos e suas palavras esta firme certeza: Deus é Amor e, por isso, amemo-nos uns aos outros (cf 1 Jo 4,16). Nesta dinâmica do amor, os cristãos não desejam privilégios. Não buscam ser melhores ou estar à frente de irmãos e irmãs que seguem outros credos ou não professam credo algum. Os cristãos, alicerçados no Evangelho, buscam um mundo onde haja espaço para todos, onde todos possam incessantemente dialogar. Os cristãos desejam um mundo onde o nome de Deus esteja ligado ao amor ao próximo, onde este amor ao próximo leve pessoas e grupos a respeitar a liberdade de crença e a busca do bem comum. Tristes foram todos os momentos da história humana em que o respeito às pessoas não foi considerado. Se lamentamos períodos de intolerância, é porque queremos dizer que nosso tempo não pode ser marcado por essa atitude que nos afasta de Deus e quebra a fraternidade.
11. Ao repetir que Deus é Amor, quero fazê-lo em atitude de convite. Convido os católicos do Rio de Janeiro a seguirem Jesus Cristo como o fez, por exemplo, S. Sebastião, padroeiro de nossa cidade e de nossa arquidiocese. De sua vida, sabemos que, mesmo após as flechas da maldade terem desejado conduzir-lhe à morte, S. Sebastião permaneceu firme na fé, anunciando o amor de Deus e o convite a experimentar este amor. Assim devemos ser todos nós, nesta cidade, onde Deus nos colocou: firmes diante das dificuldades e contínuos manifestadores do amor de Deus.
12. Convido os que buscam a paz, a felicidade e um sentido para a existência a encontrar tudo isso em Jesus Cristo, aquele que passou por esta vida fazendo o bem (cf At 10,38), aquele que, morto, ressuscitou, manifestando a vitória definitiva da vida. Estou consciente de que o caminho para Jesus Cristo passa indispensavelmente pelos que já O encontraram e O seguem. Sei também que nem sempre somos os melhores apresentadores do Senhor Jesus. Afinal, somos limitados e, também nós, por termos encontrado o Senhor, permanecemos em contínuo processo de conversão. O que peço aos que buscam a Deus é que, olhando para nós, reconheçam que somos sinais imperfeitos do Deus Perfeito e, conosco, venham fazer o mesmo percurso.
13. Não podemos nos esquecer de tantos que, acolhendo Jesus Cristo, transformaram-se e transformaram o mundo ao redor. São vidas que souberam responder aos desafios de seus tempos, fazendo-o sempre alicerçadas no amor a Deus e aos irmãos. Reitero nosso padroeiro S. Sebastião. Lembro-me dos Apóstolos, de quem, como bispo, sou sucessor: cada um com sua personalidade, sua história, mas todos com o mesmo amor por Jesus Cristo e a mesma missão de anunciar o Evangelho. Lembro-me de Francisco de Assis e Teresa de Calcutá. São muitos séculos de distância, mas um único amor a unir estes dois nomes que impressionam por seus testemunhos.
14. Lembro-me de S. Bernardo e daqueles que, seguindo a espiritualidade cisterciense, não se conformaram com o mundo à sua volta, mas o transformaram, transformando suas mentes e seus corações (cf. Rm 12,1). No caminho cisterciense, encontrei minha vocação e, na Igreja, existem tantos caminhos, existem caminhos para todos.
15. Recordo Sto. Antônio Maria Galvão, Sta. Paulina, a Beata Irmã Dulce e a querida Odetinha, serva de Deus nas terras do Rio de Janeiro. Exulto de alegria por participarmos das canonizações dos papas João XIII e João Paulo II. Não deixo de me impressionar por poder ver nos altares, como sinal de presença no céu, vidas que me foram contemporâneas. Lembro-me do Papa João Paulo II beijando nosso solo e visitando nossas cidades. Nós convivemos com santos. Nós também podemos ser santos. Nós precisamos ser santos.
16. Estou consciente de que é sempre muito difícil citar nomes, sem deixar de lado alguém. Por isso, convido a que se complete esta pequena lista com muitos outros nomes, lembrando igualmente de quem, não estando oficialmente nos altares, viveu em santidade, isto é, no amor a Deus e ao próximo (cf Apoc 7,9). Nos santos e santas, Deus manifesta seu amor para conosco, estimulando-nos a seguir seus exemplos. Com eles, quero destacar a Virgem Maria, mãe de Deus, mãe da Igreja, mãe de toda a humanidade e nossa mãe. Maria, Senhora da Conceição Aparecida, padroeira do Brasil, Senhora de Nazaré, de Belém, das Dores, da Piedade, do Cenáculo e da glória do céu. Maria, Senhora da Anunciação e do acolhimento à Palavra de Deus. Maria, Senhora da Visitação e da solidariedade em consequência da Palavra de Deus. Como este mundo seria diferente se, com Maria e como Maria, vivêssemos o mandamento do amor a Deus e ao próximo!
17. Sei que nem todas as pessoas são cristãs, que nem todos os cristãos são católicos. No ideal da unidade, ideal que aprendi de Jesus Cristo e coloquei como lema para minha vida (cf Jo 17,21), desejo que estejamos cada vez mais unidos, na certeza de que temos mais razões para nos unir do que para nos separar. Esforcemo-nos por valorizar todas as situações que a vida nos apresentar, vendo-as como convites a nos unirmos, a estarmos juntos, a fazermos juntos o que será para o benefício de todos, especialmente, como tanto tenho aqui repetido, pelos que sofrem.
 O Ano da Caridade
18. Em Jesus e com Jesus, aprendi que não se vive a Fé se não for através da Oração e na prática da Caridade. Por isso, muito me alegrei e imediatamente aprovei a indicação da assembléia arquidiocesana para o atual Plano de Pastoral no sentido de que 2014 fosse vivido como Ano da Caridade. Tenho consciência de que, para a Caridade, não existe um período especial. Ao contrário, todos os instantes são tempos para a Caridade. Se, no entanto, nosso Plano de Pastoral, após grande consulta aos católicos cariocas, assim determinou, é necessário que assimilemos bem o que isso significa. É preciso compreender que, em meio às transformações e incertezas a que antes me referi, corremos o risco de nos fechar em nós mesmos, deixando de olhar para o lado, para quem, muitas vezes ao alcance da mão, está sofrendo, precisando de nós.
19. Até a solenidade do Cristo Rei, todos os católicos cariocas, a começar por mim, vamos nos empenhar não apenas por viver a caridade. Vamos dar todas as nossas forças para vivê-la ainda mais, no desejo de que nosso testemunho envolva outras pessoas e contagie nossa cidade que, além das maravilhas naturais, poderá ser maravilhosa porque sabe viver a caridade. De acordo com a agenda arquidiocesana, alguns eventos especiais acontecerão. Contudo, ninguém deve esperar eventos especiais para colocar em prática o Ano da Caridade. Este tempo tão bonito deve estar enraizado nos nossos corações, na nossa mente e em todo o nosso ser. Deve começar nos pequenos atos, na família, no trabalho, na comunidade. Deve se manifestar na compreensão, na acolhida, na escolha das palavras, com destaque para “por favor”, “desculpe” e “obrigado”. Deve motivar o perdão e a reconciliação, especialmente nas famílias. Deve nos empurrar dos comodismos e nos levar em busca de quem já deveríamos ter buscado, mas nos deixamos sufocar pela omissão. Este é o primeiro passo do Ano da Caridade. Nada nos impede de vivê-lo.
20. O Ano da Caridade é também um tempo para revermos nosso tempo e nos dedicarmos a atividades em favor do próximo sofredor. Inúmeras são as obras sociais existentes em nossa cidade. Algumas são diretamente ligadas à Igreja Católica. Este tempo especial dedicado à Caridade nos convida à união, ao entrosamento e à partilha de experiências. Convida a que cada grupo ou instituição se volte ainda mais para os sofredores, ajudando-se mutuamente a ajudar a quem necessita. Convida os acomodados a se desinstalarem e se unirem a quem, de coração sincero, se esforça por minimizar um pouco da dor alheia. Não vai ser difícil encontrar um grupo assim. Não vai ser difícil criar um grupo assim.
21. Em terceiro lugar, o Ano da Caridade é um tempo para avaliarmos também nosso compromisso social. É um tempo para pensar o quanto temos feito para que as instituições democráticas sejam cada vez mais efetivamente democráticas, a serviço do bem comum, voltadas para os mais necessitados. Nosso Plano de Pastoral apresenta algumas indicações [1]. Recorda, por exemplo, as leis de iniciativa popular, o empenho pela regulamentação e aplicação de leis já aprovadas, a participação em conselhos comunitários ou outros organismos destinados ao bem comum. Lembra, por fim, a importância de uma atitude claramente democrática, alicerçada nos critérios de amor a Deus e ao próximo, no mundo da política, seja quando alguém se apresenta para ser votado, seja quando todos nós, por dever de consciência, escolhemos, pelo voto, alguém para nos representar.
22. O Ano da Caridade é também um tempo para fortalecermos a busca pela democracia. É um tempo para colaborarmos a fim de que as instituições democráticas sejam efetivamente capazes de realizar os anseios de justiça e bem comum. Sei que, algumas vezes, diante da dificuldade das instâncias democráticas regulares cumprirem plenamente sua missão, corremos o risco de querer buscar soluções imediatas. Preocupo-me, no entando, com alguns caminhos escolhidos para expressar as inquietudes. Estou certo de que não se resolvem injustiças sociais com violência, venha ela de onde vier.
23. Não será difícil viver o Ano da Caridade e fazer dele um motivador para todos os instantes de nossas vidas pessoais e comunitárias. Muitas são as dores ao nosso lado [2]. Maior ainda é a graça de Deus a nos ajudar. Grande deve ser a nossa união e contínua deve ser a nossa atenção. De vários lugares do Rio de Janeiro, é possível ver o Redentor do Corcovado. Também é possível perceber que o Redentor olha para nós, olha por nós. Mesmo quem se encontra em local de onde não se vê o Corcovado, sabe que sempre pode elevar o coração a Cristo e por Ele ser acolhido. É com esta certeza que viveremos o Ano da Caridade.
 A Jornada Mundial da Juventude
24. Se alguém duvida que sonhos, com a graça de Deus e a união de todos, podem se tornar realidade, eu convido a recordar a Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, ano passado. Não tínhamos experiência em preparar Jornadas, nossa cidade ainda não se encontrava plenamente apta para receber um grande evento, as comunidades paroquiais, os movimentos e as outras associações católicas estavam envolvidas em seus trabalhos cotidianos. Já bem próximo da realização da Jornada, diversas mudanças em pouco tempo indicavam que os resultados poderiam não ser tão positivos como desejado.
25. Confiantes na graça de Deus, na graça do Deus que tem seus caminhos, e unidos na oração e no serviço, levamos à frente a realização da Jornada. E exatamente aí, quando nos unimos e nos deixamos conduzir pela graça de Deus, aconteceu uma Jornada que falou aos jovens e aos não jovens, aos cariocas, aos brasileiros e aos demais povos, uma jornada que rezou, celebrou, cantou, conviveu, comemorou e, nos legados social e ecológico, mostrou que a Fé sempre deixa raízes para um mundo transformado. Não deixemos, portanto, que os frutos da JMJ Rio 2013 pereçam com o tempo. A Jornada não semeou na superfície da terra. Suas sementes foram plantadas no fundo de nossos corações. As fortes experiências vividas naquela semana, tendo à frente o querido Papa Francisco, nos deixaram um legado, mas também uma responsabilidade. Há muito por fazer e a Jornada mostrou que somos capazes de levar adiante esta missão.
26. Agradeço, como já o fiz em outros momentos, a todos que, dos mais variados modos, contribuíram para que a Jornada acontecesse. Agradeço pelos sorrisos, o suor, as lágrimas, a capacidade de recomeçar, o empenho por compreender quem pensa diferente, a ajuda material e principalmente as orações. Não cito nomes porque, diante de Deus, todos os serviços são iguais.
27. Desejo que Cracóvia, cidade escolhida para a Jornada de 2016, seja tão ou mais abençoada que nós cariocas o fomos ao preparar e executar a Jornada do Rio. Desejo que as Jornadas, nascidas do coração missionário do Papa João Paulo II, se tornem sempre mais uma solidificada riqueza para toda a Igreja.
 Ai de mim se eu não evangelizar! (1 Cor 9,16)
28. O mundo efetivamente se transforma a cada dia. Não muda, porém, a responsabilidade de cada batizado para fazer de sua vida um contínuo anúncio do Evangelho. Tenho vivas as palavras do Santo Padre Francisco, em sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudim: “A missão no coração do povo não é uma parte da minha vida, ou um ornamento que posso pôr de lado; não é um apêndice ou um momento entre tantos outros da minha vida. É algo que não posso arrancar do meu ser, se não me quero destruir. Eu sou uma missão nesta terra, e para isso estou neste mundo” [3].
29. Evangelizar é a resposta que os cristãos, ao longo dos séculos, têm dado a quaisquer situações novas. Maiores os problemas, maior deve ser a missão, uma missão que começa no testemunho, mas que se ratifica no claro falar de Jesus Cristo, na dedicação de um tempo à vida e ao serviço em comunidade e na participação ativa nas obras de caridade. Evangelizar é um convite que o Senhor Jesus faz a todos os batizados. Para isso, é preciso que nos deixemos envolver por Ele, renovando nosso encontro pessoal com Ele [4]. Busquemo-lo, porque Ele nos busca, Ele nos deseja.
30. Infelizmente, para algumas pessoas de nosso tempo, Jesus Cristo pouco significa. A luz que brilhou em meio às trevas (cf Is 9,1-2) parece que se tornou ofuscada (cf Lc 8,16) e seu anúncio precisa ser reavivado. A Conferência de Aparecida, da qual fui membro eleito por meus irmãos bispos do Brasil, nos recorda que este é um tempo para “recomeçar a partir de Jesus Cristo, a partir da contemplação de quem nos revelou em seu mistério a plenitude do cumprimento da vocação humana e de seu sentido” [5]. É um tempo para contemplar e recontemplar Jesus Cristo. É um tempo para ajudar os outros a fazerem o mesmo. Esta é a conversão pastoral a que todos somos chamados: passar de uma pastoral que se restringe a fazer o que sempre fez, atuando apenas com as mesmas pessoas, para uma “pastoral decididamente missionária” [6], uma pastoral que, no dizer do Santo Padre Francisco, coloca a Igreja em firme atitude de saída “da própria comodidade” para “alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” [7]. Convido, portanto, todos os católicos a se esforçarem “por atuar os meios necessários para avançar no caminho duma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão. Neste momento não nos serve uma simples administração. Constituamo-nos em estado permanente de missão” [8].
31. A cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro está para completar 450 anos. Em sua história, a Fé cristã sempre se fez presente. Já na fundação da cidade, através do mártir S. Sebastião, a vida da cidade e a Fé em Jesus Cristo se interligaram. Dez anos após a fundação da cidade, já era criada a prelazia do Rio de Janeiro, tornando-se diocese em 1676 e arquidiocese, em 1892. Estes marcos históricos apontam para uma fecunda vida de Fé, vida que, ao aqui chegar, me alegrei por encontrar. São muitas paróquias, com suas capelas e comunidades. Diversos são os movimentos, as entidades e outras formas de associação para viver e praticar a Fé. São corações generosos, que se doam à Evangelização, esquecendo-se do cansaço e apagando a lembrança de possíveis aborrecimentos.
32. Alegro-me, por exemplo, ao contemplar as igrejas históricas de nossa cidade. Vejo, além da beleza arquitetônica, vidas que se dedicaram àquelas construções, no desejo de que a Fé se solidificasse nesta cidade e tantos outros pudessem ter a alegria de um local para a oração. Alegro-me também quando encontro uma pequena capela ou uma comunidade que, para se reunir, necessita improvisar o local. São caminhos diferentes para viver a mesma Fé. As igrejas históricas de nossa cidade nos mostram o que os antepassados fizeram, mas também nos apontam o quanto precisamos fazer hoje. As pequenas capelas e os locais improvisados indicam que estamos fazendo nossa parte.
33. Vejo surgir, a cada dia, novas formas de organização em vista da ação evangelizadora. Alegro-me por ver a criatividade pastoral, o incansável espírito missionário, o desejo de abrir novas frentes, a sensibilidade, enfim, para as situações geográficas ou existenciais a que a ação evangelizadora ainda não chegou adequadamente. Bendigo a Deus pelo empenho dos padres, diáconos e leigos em suscitar novas comunidades, construir capelas, animar os círculos bíblicos e os demais pequenos grupos de oração e reflexão em torno da Palavra de Deus. Tanto se faz, que só mesmo o olhar carinhoso do Senhor para abranger tamanha dedicação.
34. Enquanto escrevo esta carta, não cesso de ouvir as notícias de tantas situações de sofrimento que desafiam nosso amor por Jesus Cristo. Entristeço-me, por exemplo, com a situação dos encarcerados, que, em lugar de recuperação, recebem, na maioria das vezes, tratamento indigno até para as pedras que rolam soltas em nossas ruas. Angustio-me ao ver crescer a condição de refugiado, num mundo que Deus criou para ser pátria de todos. Não entendo, senão a partir do pecado, a atitude de pessoas que intentam lucrar com a vida alheia, traficando seres humanos, vivendo às custas do trabalho escravo e de outras situações degradantes. Não aceito como pensamento evoluído qualquer ameaça à vida. Negar, rejeitar e mesmo destruir a vida é mais que involução. É pecado grave, que cumpre denunciar e clamar à conversão.
35. Estou consciente de que estes novos tempos afetaram muito diretamente a compreensão de família e que nem sempre encontraremos o perfil familiar ao qual estamos acostumados. Uno-me ao Santo Padre Francisco, em sua convocação a um Sínodo exatamente sobre a Família e algumas questões correlatas. Reconheço que, em meio às transformações de nosso tempo, não podemos abdicar da família como condição de humanização e escola para a descoberta, o aprendizado e o testemunho do amor de Deus. Agradeço pela família em que nasci. Agradeço por todas as famílias, que, envoltas em tantos desafios, não desanimam da união. Rezo e busco a cada dia caminhos evangelizadores para fortalecer as famílias e acolher as que se encontram em situação de sofrimento.
O cardinalato
36. No início deste ano, fui escolhido pelo Papa Francisco para o cardinalato. O fato de saber da notícia durante a trezena de S. Sebastião me ajudou a perceber o sentido de mais esta missão em minha vida. Eu estava no percurso de um local para outro, levando a imagem missionária de nosso padroeiro, visitando comunidades, sendo carinhosamente recebido, contemplando sorrisos e, quando necessário e possível, partilhando lágrimas que guardei dentro de mim.
37. A chegada da notícia naquele momento me marcou, pois, se eu sempre tive a certeza de que tudo na Igreja deve ser vivido como serviço, confirmou-se em mim que o cardinalato, ao contrário do que às vezes se pensa, não é uma honraria, ao estilo de promoções humanas. É uma missão, é um impulso a que eu continue peregrinando pelas ruas de nossa cidade, levando o amor de Deus. Terei sempre comigo as palavras que o Santo Padre dirigiu aos cardeais por ele escolhidos e, assim, recebo “esta designação com um coração simples e humilde” [9].
38. Interessante observar que, em sua origem, a palavra cardeal tem algo a me inspirar. Este termo se refere a certo tipo de dobradiças. São aqueles pequenos instrumentos, que, sem ofuscar a beleza e a solidez da porta, permitem que a mesma cumpra sua função. As dobradiças sustentam as portas e, pelas portas, passam pessoas. Quero, pois, com meu cardinalato, sempre fortalecido pelo Espírito Santo, ajudar a Igreja a permanecer firme em sua missão. Que pela porta da Igreja passem pessoas, povos e culturas ao encontro do Cristo Senhor. E que, esta porta nunca seja um caminho de volta, uma passagem que afasta de Jesus Cristo, Verbo de Deus feito homem para a nossa salvação.
39. Desde de criança, aprendi a pedir orações. Com o Papa Francisco, durante a Jornada, repeti interiormente a mesma solicitação que ele fazia a quem com ele falava. “Reze por mim”, repetiu incansavelmente o Santo Padre. Nós rezamos e rezaremos por ele. Não há dúvida. Mas, tomo a liberdade de me unir ao Santo Padre neste pedido: não se esqueçam de rezar também por mim. Se grande é a missão, menor é o servo e maior a urgência da oração.
O convite:
40. Agradeço pela acolhida a esta minha Carta Pastoral. Nela procurei colocar um pouco do que meu coração de pastor tem guardado desde que fui carinhosamente recebido no Rio de Janeiro.
41. Completo com um convite já tão manifestado. Aos católicos, convido a viver, a testemunharem sua fé. Aos irmãos em Cristo Jesus, convido à crescente unidade na oração, no convívio e no serviço à justiça e ao bem comum. A todos, enfim, convido a buscarmos sempre mais a união em torno do bem e da paz. Ofereço meu sincero desejo e minhas forças para que, em meio às diferenças, sejamos capazes de sempre nos unir. E que Deus a todos continue abençoando.
 Rio de Janeiro, 25 de fevereiro de 2014.
† Orani João Cardeal Tempesta, O.Cist.
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro


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NOTAS:

[1] Arquidiocese de S. Sebastião do Rio de Janeiro, 11º PPC, nn 133-135.
[2] Cf Documento de Aparecida nn. 65, 257, 402 e 407 a 430
[3] Papa Francisco, Exortação Apostólica Evangelli Gaudium, 273
[4][4][4] Papa Francisco, Exortação Apostólica Evangelli Gaudium, 3
[5] Documento de Aparecida, 41
[6] Documento de Aparecida,  370
[7] Papa Francisco, Exortação Apostólica Evangelli Gaudium, 20
[8] Papa Francisco, Exortação Apostólica Evangelli Gaudium, 25
[9] Papa Francisco, Carta aos Cardeais eleitos, 12 de janeiro de 2014



* A Carta Pastoral foi entregue durante a missa de acolhida ao arcebispo do Rio, Cardeal Orani João Tempesta, no dia 25 de fevereiro, na Catedral

fonte: arqrio.org

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Homilia do Papa Francisco no Consistório para criação de novos cardeais




CONSISTÓRIO ORDINÁRIO PÚBLICO PARA A CRIAÇÃO DE NOVOS CARDEAIS
CAPELA PAPAL

HOMILIA DO PAPA FRANCISCO

Basílica Vaticana
Sábado, 22 de Fevereiro de 2014

«Jesus 
caminhava à frente deles» (Mc 10, 32).
Também neste momento Jesus caminha à nossa frente. Ele está sempre à nossa frente. Precede-nos e abre-nos o caminho... E esta é a nossa confiança e a nossa alegria: ser seus discípulos, estar com Ele, caminhar atrás d’Ele, segui-Lo...
Quando eu e os cardeais concelebrámos juntos a primeira santa Missa na Capela Sistina, «caminhar» foi a primeira palavra que o Senhor nos propôs: caminhar e, em seguida, construir e confessar.
Hoje volta aquela palavra, mas como um acto, como a acção de Jesus que continua: «Jesus caminhava…» Isto é uma coisa que impressiona nos Evangelhos: Jesus caminha muito e instrui os seus discípulos ao longo do caminho. Isto é importante. Jesus não veio para ensinar uma filosofia, uma ideologia... mas um «caminho», uma estrada que se deve percorrer com Ele; e aprende-se a estrada, percorrendo-a, caminhando. Sim, queridos Irmãos, esta é a nossa alegria: caminhar com Jesus.
E isso não é fácil, não é cómodo, porque a estrada que Jesus escolhe é o caminho da cruz. Enquanto estão a caminho, fala aos seus discípulos do que Lhe acontecerá em Jerusalém: preanuncia a sua paixão, morte e ressurreição. E eles ficam «surpreendidos» e «cheios de medo». Surpreendidos, sem dúvida, porque, para eles, subir a Jerusalém significava participar no triunfo do Messias, na sua vitória – como se vê em seguida pelo pedido de Tiago e João; e cheios de medo, por causa daquilo que Jesus haveria de sofrer e que se arriscavam a sofrer eles também.
Mas nós, ao contrário dos discípulos de então, sabemos que Jesus venceu e não deveríamos ter medo da Cruz; antes, é na Cruz que temos posta a nossa esperança. E, contudo, sendo também nós humanos, pecadores, estamos sujeitos à tentação de pensar à maneira dos homens e não de Deus.
E quando se pensa de maneira mundana, qual é a consequência? Diz o Evangelho: «Os outros dez indignaram-secom Tiago e João» (cf. Mc 10, 41). Indignaram-se. Se prevalece a mentalidade do mundo, sobrevêm as rivalidades, as invejas, as facções…
Assim, esta palavra que o Senhor nos dirige hoje, é muito salutar! Purifica-nos interiormente, ilumina as nossas consciências e ajuda a sintonizarmo-nos plenamente com Jesus; e a fazê-lo juntos, no momento em que aumenta o Colégio Cardinalício com a entrada de novos Membros.
Então «Jesus chamou-os...» (Mc 10, 42). Aqui temos o outro gesto do Senhor. Ao longo do caminho, dá-Se conta que há necessidade de falar aos Doze, pára e chama-os para junto de Si. Irmãos, deixemos que o Senhor Jesus nos chame para junto de Si! Deixemo-nos “con-vocar” por Ele. E ouçamo-Lo, com a alegria de acolhermos juntos a sua Palavra, de nos deixarmos instruir por ela e pelo Espírito Santo para, ao redor de Jesus, nos tornarmos cada vez mais um só coração e uma só alma.
E, enquanto nos encontramos assim convocados pelo nosso único Mestre, «chamados para junto d’Ele», digo-vos aquilo de que a Igreja precisa: precisa de vós, da vossa colaboração e, antes disso, da vossa comunhão comigo e entre vós. A Igreja precisa da vossa coragem, para anunciar o Evangelho a tempo e fora de tempo, e para dar testemunho da verdade. A Igreja precisa da vossa oração pelo bom caminho do rebanho de Cristo; a oração – não o esqueçamos! – que é, juntamente com o anúncio da Palavra, a primeira tarefa do Bispo. A Igreja precisa da vossa compaixão, sobretudo neste momento de tribulação e sofrimento em tantos países do mundo. Exprimamos juntos a nossa proximidade espiritual às comunidades eclesiais, e a todos os cristãos que sofrem discriminações e perseguições. Devemos lutar contra toda a discriminação! A Igreja precisa da nossa oração em favor deles, para que sejam fortes na fé e saibam reagir ao mal com o bem. E esta nossa oração estende-se a todo o homem e mulher que sofre injustiça por causa das suas convicções religiosas.
A Igreja precisa de nós também como homens de paz, precisa que façamos a paz com as nossas obras, os nossos desejos, as nossas orações. Fazer a paz! Artesãos da paz! Por isso invocamos a paz e a reconciliação para os povos que, nestes tempos, vivem provados pela violência, a exclusão e a guerra.
Obrigado, Irmãos muito amados! Obrigado! Caminhemos juntos atrás do Senhor e deixemo-nos cada vez mais convocar por Ele, no meio do povo fiel, do santo povo fiel de Deus, da Santa Mãe Igreja. Obrigado!


Clique aqui para ouvir algumas palavras do Cardeal Orani no Consistório de sábado.






fonte: pt.radiovaticana.va